óleo usado:verdades e mentiras
Amigos do Biodiesel
A utilização de óleos pós-processamento é mínima e tem uma logística complexa. Em 1999, começamos no Rio de Janeiro o Programa Rio Biodiesel e como iniciativa fizemos um acordo com 60 lojas de uma grande cadeia de fast food de "doação" de óleo vegetal usado . Há dez anos tínhamos o mesmo discurso "não podemos jogar o óleo no ralo porque ele vai virar combustível limpo".
Como prevíamos além do óleo usado ter uma alta acidez e impuro demandava processos prévios além daqueles que promovem a transesterificação para a produção de Biodiesel. E sabíamos que comercialmente não havia lucro dado a logística de recolhimento.
Verificou-se também que o óleo usado era "vendido" para fazer sabão e mesmo assim o Programa Rio Biodiesel ganhou, espontaneamente, a mídia durante anos. A idéia é interessante e ainda cativa a todos.
Em 2007, o Secretário de Estado Carlos Minc (atual Ministro do meio ambiente), resolve, em uma ação inédita, adotar a compra de óleo usado e formou cooperativas de catadores, caminhão de coleta e uma política de incentivo e hoje ainda estamos estudando outras formas de ação de Estado e cada vez mais nos defrontamos com problemas tais como por exemplo: a questão do catador que é de suma importância o que torna compreensível as preocupações da Comissão Executiva Interministerial do Biodiesel.
O catador de latinhas de alumínio tem autonomia porque não precisa falar e nem pedir nada a ninguém e, no final do dia, vende sua mercadoria para a cooperativa. O catador de óleo, que também vive na mendicância, tem que se dirigir às donas de casa, donos de restaurantes, porteiros de prédio e sempre são maltratados e muitas vezes escorraçados. Acontecerá que esta tarefa será organizada pela classe média desempregada que, na onda da inclusão social, envolverá alguns miseráveis para acessar as benesses do poder público. Temos que regular a partir desta premissa.
Precisamos saber também que:
a) os grandes restaurantes vendem o óleo usado para fazer sabão cujo valor agregado é maior;
b) segundo a ABIOVE (só em soja) o Brasil consome 4 milhões de toneladas/ano ou (4 bilhões de L/ano). Fazendo um cálculo simples, cada habitante consome 20 ml/dia (20g de gordura) em tudo que come;
c) milhões de pessoas, que moram em casas e edifícios jogam no ralo por dia, em média, 2 ml de óleo, porque o óleo é praticamente consumido todo na comida. Lógico que este descarte, multiplicado pelo numero de habitantes, parece grande;
O que está se resolvendo hoje é tratar o esgoto e, a partir dele, produzir adubos ou mesmo extrair dele a gordura (escuma), para a produção de Biodiesel. Evidentemente, esta atividade deve ser subsidiada porque tem baixo rendimento. Entretanto, como iniciativa do poder público, tem valor.
Portanto, quem quiser falar em recolher óleo usado, precisa, antes de mais nada, fazer o balanço energético de cada passo, ou seja, calcular a diferença do custo da energia gasta para o recolhimento do óleo e o da energia produzida pelo Biodiesel. Até agora, ainda não tivemos um modelo de qualquer projeto deste tipo para considerá-lo comercialmente viável..
Então vejamos: porque a Europa não está fazendo Biodiesel a partir de óleo usado? Eles necessitam mais do que nós, porque plantam as oleaginosas em outros países e tem uma maior consciência ecológica.
Tratar o esgoto é que vai diminuir os gases que promovem o efeito estufa, as doenças, as internações hospitalares e aumentar a auto - estima e a dignidade.
Por fim, quem é obrigado a conviver com esgoto sem tratamento e a céu aberto, como a maior parte de nossa população, não sabe e não quer saber de camada de ozônio,de efeito estufa, de aquecimento global, de derretimento das calotas polares, de aumento do nível do mar, de Biodiesel, de células solares, de aerogeradores. E porque? porque, como já ouvi - isso é coisa de rico. Existem outras prioridades, como aquelas a que nos submetíamos quando estava em jogo a própria sobrevivência da espécie.
Nelson Furtado
Coordenador e Fundador do Programa Rio Biodiesel
sábado, 21 de novembro de 2009
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